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Francisco Fiorini

Casa de tábuas

Obra de: Francisco Fiorini
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Crônicas - Sociais Livre

Antigamente, tudo era feito de tábuas. A casa, o paiol, o chiqueiro. A vida inteira era cercada de tábua. Até as moças davam tábua na gente, que já tinha cara de pau desde nascença. Tinha tábua de lavar roupa, tábua de passar, e mulher levando tabuada na cara. Não era matemática. Era porrada, facada, tiro. Tudo em nome da honra. E honra não passa de um cercadinho de tábuas em volta do preconceito.
Hoje mudamos de material. Temos IA, impressora de órgão, chip menor que unha. Prometeram que a gente ia imprimir fígado novo pra substituir o que o uísque estragou. Que mundo chique. Só esqueceram de atualizar o software do ser humano.
Porque antigamente foi ontem. Foi de manhã. A mulher ainda apanha com tábua. Só que agora filmam. O gay ainda morre na paulada. Só que agora vira hashtag. O preto ainda é linchado. Só que agora é com tábua digital: cancelamento, exposição, humilhação em 4K. Trocamos o prego pelo algoritmo, mas o caixão continua de madeira.
Direitos? Temos. Lei? Também. Só não avisaram pra tábua. Ela continua batendo do mesmo jeito. Antes era na sala, agora é na internet. Antes era na surdina, agora é com live. O mundo trocou a tábua de piso por piso de vidro. Ficou mais bonito de ver a queda.

Solução? Não tem. Tem tábua. Sempre teve.

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